Gestação

Engravidar depois dos 40: mais difícil não quer dizer impossível

Engravidar depois dos 40 dobrou no Brasil em 20 anos. Entenda o que idade materna avançada realmente significa e o que decide o risco da sua gestação.

Por Dra. Priscila Lugarinho
Dra. Priscila Lugarinho sendo entrevistada para o programa Tudo a Ver sobre gravidez após os 40 anos, ao lado da tela com a ilustração de um bebê no útero

Tem uma expressão que eu gostaria de traduzir antes que ela assuste mais alguém: “idade materna avançada”. A paciente lê isso no pedido de exame, no prontuário, no laudo do ultrassom, e entende que acabou de receber um diagnóstico. Não recebeu. É só um nome técnico para uma faixa de idade.

Eu falei sobre isso na televisão essa semana, e você pode assistir à reportagem no fim desse texto. Repito aqui o que eu disse lá, porque é o que mais escuto no consultório: depois dos 40, engravidar é mais difícil. Mas mais difícil não é a mesma coisa que impossível. E ter uma gestação saudável nessa idade também não é impossível. Essas duas frases cabem juntas, e é sobre elas que eu quero conversar com você.

Você não está sozinha nessa conta

Se parece que todo mundo está tendo filho mais tarde, é porque está mesmo.

Segundo o IBGE, entre 2003 e 2023 a fatia de bebês nascidos de mães com 40 anos ou mais dobrou no Brasil, de 2,1% para 4,3%. Só em 2023 foram cerca de 109 mil bebês. No mesmo período, a gravidez na adolescência caiu quase pela metade.

Esse número não caiu do céu. Ele é carreira, estudo, estabilidade financeira, o relacionamento que chegou depois, o tratamento que precisou de tempo. Mulher nenhuma adia a maternidade por descuido. Ela adia porque a vida dela tem outras coisas acontecendo ao mesmo tempo, e isso é legítimo.

O que “idade materna avançada” realmente significa

Na medicina, o termo começa a valer a partir dos 35 anos. Ele não diz que sua gestação vai dar problema. Ele diz duas coisas bem mais modestas:

  • A chance de engravidar em cada ciclo é menor, porque a quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem com o tempo. Menor não é zero.
  • O pré-natal merece um olho mais atento para algumas condições que aparecem com mais frequência nessa fase.

É um aviso de atenção, não um veredito. E eu digo isso de um lugar que não é só o da médica: eu engravidei aos 35 e aos 38.

O que decide o risco não é a sua data de nascimento

Vou ser honesta, porque informação pela metade assusta mais do que a informação inteira.

Depois dos 40 aumenta a chance de algumas coisas: pressão alta da gestação e pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, alterações cromossômicas no bebê, mais chance de o parto ser cesárea. Esses riscos são reais e ninguém deveria esconder isso de você.

Agora a outra metade, que quase nunca vem junto: a idade é só um fator da conta, e é o único que não dá pra mudar. Os outros dão.

Uma paciente que se exercita com regularidade, que come bem, que cuida dos hábitos de vida, pode ter uma gestação que nem precisa ser classificada como de alto risco. Vejo isso no consultório com frequência. Pressão controlada, peso acompanhado, glicose no lugar, sono e estresse olhados de perto: isso muda o rumo de uma gestação muito mais do que o número no seu documento.

Onde o pré-natal entra de verdade

O bom pré-natal depois dos 40 não é fazer mais exames por medo. É fazer os exames certos, no tempo certo, com dois objetivos claros:

Impedir que a complicação apareça. Muita coisa que acontece na gestação de idade materna avançada dá aviso antes. Pressão que começa a subir, glicose que sai da faixa, ganho de peso desproporcional. Quem acompanha de perto vê isso chegando e age antes de virar problema.

Descobrir cedo o que já existe. Se você já tem alguma condição, ou se alguma coisa aparece no meio do caminho, o diagnóstico precoce evita que ela chegue com gravidade na reta final, que é quando cobra mais caro.

É isso que um pré-natal bem feito faz. Ele não elimina o risco, nenhum médico honesto vai te prometer isso. Ele tira os problemas do escuro num momento em que ainda dá tempo de cuidar, e isso quer dizer uma coisa bem concreta pra você: chegar no fim da gestação com menos surpresa e mais chão embaixo dos pés.

O melhor começo, quando dá, é antes: uma consulta de planejamento, ainda tentando engravidar. Pressão, tireoide, glicose, vitaminas, peso, os remédios que você usa. Chegar já ajustada vale mais do que correr atrás depois.

A parte que ninguém coloca na conta

Cada idade tem suas vantagens e seus desafios, e eu acho injusto que só os desafios dos 40 sejam falados.

Na mesma reportagem, a psicóloga Priscila Monici resumiu isso de um jeito que eu gostei: aos 20 a mulher ainda está construindo a identidade dela, a personalidade, a carreira, os relacionamentos. Aos 30 chega mais autoconsciência. Aos 40, o que chega é clareza emocional e segurança.

Eu vejo isso no consultório o tempo todo. A mulher que engravida depois dos 40 costuma chegar sabendo o que quer, conhecendo o próprio corpo, tendo atravessado coisas difíceis antes. Isso aparece na paciência com o cansaço, no olhar para o primeiro engatinhar, para o primeiro balbucio, detalhes que passam batidos na correria de outra fase da vida. Aparece na forma de decidir junto comigo, em vez de só receber ordens. Não é pouco. É um tipo de preparo que nenhum exame mede.

Planejar o próprio futuro é um direito

A gente tem hoje o direito de planejar o nosso futuro, e eu faço muito isso no consultório, com pacientes desde a adolescência. Não é decidir agora se você vai ter filho. É saber onde você está.

Isso vale em dobro se você tem alguma condição que mexe com a fertilidade e costuma ser descoberta tarde, como a síndrome dos ovários policísticos ou a endometriose. Quanto mais cedo isso entra no radar, mais opções você tem na mão. E se a sua dúvida é a outra ponta da história, o corpo que já muda antes dos 50, eu explico essa fase no post sobre a perimenopausa.

Cada caso é individual, e nada aqui substitui a conversa com quem acompanha você. Mas ninguém deveria descobrir as próprias possibilidades só no dia em que decidir tentar.

Vem conversar comigo

Se você tem 40 e quer engravidar, se está grávida e saiu da consulta com a expressão “idade materna avançada” na cabeça, ou se só quer saber onde você está antes de decidir, esse é o convite.

Vem conversar comigo numa consulta de obstetrícia. A gente olha a sua saúde de verdade, monta o acompanhamento no seu ritmo e cuida dessa gestação de pertinho, do planejamento ao nascimento. Sem ninguém te tratando como problema por causa de um número.

Que privilégio é caminhar junto nessa parte da vida.

Assista à reportagem

Dra. Priscila Lugarinho durante a entrevista no consultório, ao lado da tela com a ilustração de um bebê no útero
A reportagem em que falei sobre maternidade depois dos 40: o que muda no corpo, o que muda no emocional e por que a idade não decide sozinha o risco da gestação. Programa Tudo a Ver · Record Interior SP · 28/09/2026

Dra. Priscila Lugarinho · CRM-SP 161727 · Ginecologia RQE 84472 · Mastologia RQE 84473 · Atendimento em Ribeirão Preto e região.